2.12.11

oh what fun it is to ride in a one-horse open sleigh



Desnorteado é aquele que perdeu o norte, tanto quanto desorientado é aquele que perdeu o oriente, e ambos estão a leste, repentinamente soterrados numa insolúvel contradição. Acontece muito a gente isolada pela neve, pela dúvida ou pelo erro. O que se aconselha é a escolha avisada de outro referencial que não a linguagem, mais útil a abrir portas do que a rasgar caminhos.


(fotograma de Antigravitation, de Audrius Stonys, Lituânia, 1995)

1 Comments:

Blogger Ana said...

Pedro, o maior comentário de sempre e que não faz sentido. que não é meu e que procurei durante horas nos meus cadernos de notas.

"Desorientação significa perda do Oriente. Perder o oriente é perder as coordenadas, as certezas, o conhecimento daquilo que é e do que pode vir a ser, e talvez a própria vida. O oriente orienta. Essa é a versão oficial. É a própria linguagem que o diz e nunca se deve argumentar contra a linguagem.


Mas vamos supor... E se tudo isso for uma grande vigarice? Se tudo isso - o lar, a família, toda essa treta - for o exemplo mais flagrante, mais global e com séculos de existência, de lavagem de cérebros? Suponhamos que é só quando ousamos deixarmo-nos ir que começa a nossa verdadeira vida. Quando nos afastamos do navio-mãe, quando cortamos as amarras, tiramos as correntes, saímos do mapa, nos ausentamos sem autorização, fugimos, cavamos, seja o que for: suponhamos que é então, e só então, que temos liberdade para agir! Para levar a nossa vida sem ninguém para nos dizer como e quando e porquê. Sem ninguém para nos dizer para marcharmos em frente e dar a vida por eles, ou por Deus. Ninguém para nos vir chatear, porque quebrámos alguma regra ou porque fazemos parte daquele número de pessoas que, por razões que infelizmente não nos podem ser explicadas, são, pura e simplesmente proibidas.


Suponhamos que temos que passar pela sensação de estarmos perdidos, para além do caos; que temos que aceitar a solidão, o pânico de perdermos as amarras, o terror vertiginoso do horizonte girando à nossa volta como a borda de uma moeda atirada ao ar.


Não queremos passar por isso. A maioria não quer. A lavandaria do mundo é especialista em lavagens de cérebros: não saltes dessa falésia não passes essa porta não mergulhes nessa cachoeira não tomes esse risco não passes essa linha não ofendas a minha sensibilidade estou-te a avisar não me faças enfurecer estás a desobedecer estou a ficar furioso."

Salman Rushdie

05/12/11 11:34  

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