go on and lose the gamble that's the history of the trade
Desenganem-se os que acreditam no xadrez como uma boa metáfora para a vida. No xadrez existem vencedores. Por cá, os que dão a estocada final acabam muitas vezes derrotados e lançados ao frio de uma espera incerta. Cá dentro não existem transportes públicos.
(tenho quase a certeza de que a fotografia é da adoravelmente precoce Emma Arvida Elizabeth)
She used to say 'I love you' in a way that made me cringe. 'I love you, Neil' – in this whining, self-pitying tone that meant 'Don't leave me'.*
Que ninguém venha à procura de um manual de abandono. Em Dogs Barking morde-se. Não há ali nada que se deva tentar em casa. Nos melhores momentos, há algo de muito errado; nos piores, é tudo insuportável. Mas eu acho que a peça não foi escrita por um dramaturgo, acho que o Richard Zajdlic é cirurgião. Aquilo tem a frieza de uma apresentação clínica, como se o tipo se limitasse a retalhar um cadáver previamente depositado na marquesa. É tudo muito banal: uma batalha campal entre dois amantes que já não o são há muito. Tudo muito visto. Mas resulta sempre. E ali, não duvidem, é à bruta. O que está muito bem, gosto de autores que desatam à chapada aos espectadores. Por amor.
* Richard Zajdlic, Dogs Barking (Faber and Faber, 1999)
(fotograma de Dim, de Ann-Kristin Wecker, Alemanha, 2004)
they are asking of me how long will you ramble how long will you still repeat
A referência bibliográfica deste texto vai ser: Dulce Maria Cardoso, Os Meus Sentimentos (Asa, 2005). Eu adoro esta mulher e este livro e devo o feliz e doloroso encontro a uma não menos adorável lebre. Com exageradíssimo atraso, o livro recebeu recentemente um importante prémio, esperando-se agora muitos leitores a entrarem descalços naquela casa cheia de vidros partidos. Não sejam medricas, o que dói mais ficará do lado de fora. Talvez por isso, não me conforto quando ela nos jura que o passado não tem sítio, a única vantagem do passado é não existir em lado algum, porque eu sei que, ao não ter sítio, o passado existe em todos os lados. Acreditem, sei muito bem o que é ser aquele que fica no cais de embarque a despedir-se de si próprio.
(fotograma de Vokaldy Paralelder, de Rustam Khamdamov, Cazaquistão, 2005)
Estava farto de estar morto. Tempos complicados adiam muitos amanhãs mas vou partir do princípio que o prazo de validade das minhas pequenas revoltas, que afinal são três e sem brilho, foi dilatado. Este texto é muito sério e, como convém, muito inútil. Esta é a parte em que passam para o blog seguinte, até porque estou muito entediado e vou só dizer, por ordem cronológica, que:
só um grupo de idiotas descontextualiza grosseiramente o Almada Negreiros para fazer um ataque ressabiado ao Ricardo Pais, um dos nomes a que o teatro em Portugal mais deve - e ainda lhes pagámos para brincarem aos índios;
só um grupo de idiotas pode não sentir-se ofendido enganado usado (não riscar nada, porque interessa tudo) ao ver o principal partido da oposição tentar ser Governo com um programa eleitoral minimalista (ou seja, preferindo a estratégia de marketing de um hipermercado a um verdadeiro compromisso com o eleitorado) e apresentando-o duas ou três semanas antes das eleições, apesar de supostamente já estar pronto (esta parte, por respeito à vossa inteligência, não comento);
só um grupo de idiotas achará normal que um jornal como o Público apresente como verdadeira e confirmada uma notícia dada por alguém-que-ouviu-dizer, mesmo quando uma das partes directamente envolvidas a desmente repetidamente, caso óbvio do triângulo amoroso Francisco Louçã/Joana Amaral Dias/PS - seja ou não verdadeira a denúncia de treta (em nenhum planeta isto é um grande caso), os critérios jornalísticos do Público foram uma delícia.
(fotograma de Hiroshima Mon Amour, de Alain Resnais, França/Japão, 1959)
Não anda tudo doido, eu é que subestimo a minha capacidade de ser surpreendido. Nos últimos dois dias houve duas notícias-daquelas-que-me-fazem-revirar-os-olhos. Coisa pouca, bem sei, mas bom produto. Amanhã dou-lhes nomes.
(fotograma de Vokaldy Paralelder, de Rustam Khamdamov, Cazaquistão, 2005)
Já alguma vez entraram pelo lado errado da canção? Quando não são quem a voz canta mas quem a voz acusa? Doeu? (...) Alguns destroços têm dois sentidos.
(fotograma de Trys Dienos, de Sharunas Bartas, União Soviética, 1991)
Last time he found me licking the pavement. He thinks I've lost hope. I just like the taste.*
Não subestimem a perdição das criaturas perdidas. Não a tomem por uma doença pronta a ser medicada, como se a loucura fosse louca por escapar à norma. Quando o é por escapar à lucidez. Apenas isso. Há muita gente que sabe o que faz enquanto anda pelas ruas a desmoronar-se. Sabem-no muito bem. Nem que seja depois. Estão sempre a apanhar os estilhaços e acreditam muitas vezes que será a última vez. São doidos e indigentes. (Mas se pensam que estou a falar de doidos ou indigentes, estão muito enganados.)
* Abi Morgan, Tiny Dynamite (Oberon Books, 2001) (fotograma de Daisies, de Vera Chytilová, Checoslováquia, 1966)
I think everything has the potential to be lethal in context. (…) It was like that story about throwing a sandwich off the Empire State Building and cracking a paving stone – this idea of being killed by a sandwich.*
Foram sempre as pequenas coisas. Ridiculamente pequenas. Alguém me acompanhe aqui, por favor, não hei-de ser o único a reconhecer que não é uma frase feita. Ler uma peça que começa por citar uma sanduíche assassina não devia ser razão para grandes sobressaltos, há tanto acidente bizarro por aí - e em Tiny Dynamite (que por acaso até é uma peça sobre o que está a menos e não sobre o que está a mais) não se cansam de nos lembrar. Mas lembrando-me, lembro-me que me tenho construído a partir de acasos tão insignificantes como improváveis. Tudo o que me importa. Não consigo detectar uma excepção. Se vos dissesse.
* Cornelia Parker citada por Abi Morgan, Tiny Dynamite (Oberon Books, 2001) (fotografia de Felipe Afonso)
Especialmente para vocês, grandes maricas que se dedicam a fazer comentários redundantes sobre as notícias do jornal, a fazer queixinhas à professora e a publicar listas de compras, deixo-vos com uma notícia de última hora: há uma vida lá fora. É aproveitar o fim-de-semana, que vai estar sol.
(fotograma de Daisies, de Vera Chytilová, Checoslováquia, 1966)
you'd like to stay in heaven but the rules are too tough
Apresentem-se os culpados à chamada: are you hurting the one you love?, porque é o que a Florence exige e ela, quando canta, parece saber o que é fugir do paraíso. Não sei o que poderão fazer quanto a isso mas sei que se sabem o que é cair por terem empurrado alguém, saberão demasiado bem que não é no pavimento que a vossa queda termina.
(fotograma de Mistrz, de Piotr Trzaskalski, Polónia/Alemanha, 2005)
Há uma sentença para os que não choram: a descrença. Há-de haver alguém por aí que sabe do que falo. Não se ponham a ruir por dentro sem o aparentarem. O mundo acredita apenas quando o rosto se transforma, não é uma lei nova, nunca houve aí muita piedade. O corpo é o único prédio em ruínas a que não se admitem escoras.
(fotograma de Baile de Outono, de Veiko Õunpuu, Estónia, 2007)
It was a new kind of love: my first screen crush. (...) I managed to transform my bored desire into a total fantasy. (...) I can't share my life with a fantasy, but most relationships are built just on just that.* É muito cruel dizer que anda por aí demasiada gente de mão dada com um pedaço de celulóide. Ainda bem que eu não disse nada.
*citação de Cum Quietly or Not At All in Strangeland, de Tracey Emin (Sceptre, 2005)
(Rudolfo Valentino e Vilma Bánky num fotograma de The Eagle, de Clarence Brown, EUA, 1925)
Trouxe guloseimas do quiosque no último domingo, provando que se aprende quase tanto a comprar jornais como a lê-los. Bastou um olhar distraído para reconhecer o longo caminho que a língua portuguesa e a igualdade de géneros ainda têm que percorrer neste país. Na capa de uma revista, Cristiano Ronaldo exprimia a sua indignação: Não admito que ninguém moleste a minha mãe, e realmente a senhora também é gente, dêem-lhe uma oportunidade. Quase ao lado, podia ler-se mais uma publicidade digna dirigida às mulheres e que dispensa comentários: Clix.pt é a morada dos assuntos das mulheres. Onde é fácil encontrar as últimas do jet set, o horóscopo, a sexologia, a moda, os conselhos de beleza e as receitas Nestlé. Os quiosques estejam convosco.
(fotograma do vídeo de Today, dos Smashing Pumpkins, por Stéphane Sednaoui, 1993)
Metade do que Freud explicava não tem explicação. Foi bom enquanto durou mas já não podemos desculpar tudo com a mãe ou com o tamanho do dedo mindinho. Fazer corninhos enquanto se debate a nação, por exemplo. Eu acredito que tenha havido sinceridade no gesto do ministro, que se é um demónio, é um demónio, e se é um erro de casting, é um erro de casting. Ele simplesmente não conseguiu segurar o mafarrico que há dentro de si. Repararam no sorriso? Delicioso. Ele só aceitou ser ministro para um dia poder viver aquele momento. E o seu percurso não o desmente. adenda: Por outro lado, é muito mais importante sublinhar isto que ela disse. É ter cuidado.
(cartoon de Mark Stivers, muito provavelmente baseado no conflito interior de Manuel Pinho)