27.4.09

if you feel like you're alone, no, no, no, you are not alone



Os abandonos, como toda a gente sabe, têm um cheiro intenso a queimado e estão disponíveis em duas versões: atropelamento intencional e afogamento por distracção, geralmente na banheira. O que nunca nos dizem é que os vazios não se remediam. O que nos dizem é que não há nada que não se resolva, o que até pode ser verdade, mas não naquele momento. O problema das palmadinhas nas costas é o sentido de oportunidade. Quando está tudo estilhaçado, não precisamos que nos alertem para o sol lá fora. Eventualmente voltaremos a respirar, mas não nos precipitemos, deixem-nos morrer um pouco. Talvez por isso, sempre detestei a Everybody Hurts dos R.E.M., palmadinha nas costas de tanta gente. Mas entretanto reconciliei-me com a cretinice da canção por culpa exclusiva dos Bodies Of Water (já falei deles aqui e continuam a ser a melhor banda do mundo por mais alguns dias). A diferença é que agora a canção parece de redenção e não de encorajamento. Não há nada como nos dizerem a verdade.

Bodies Of Water – "Everybody Hurts"

(É favor roubá-la, que eles deixam.)

too much information



No metro contam-se histórias. São quase sempre silenciosas, lidas nos olhares e nos gestos distraídos, mas algumas são contadas ao telemóvel com generosidade suficiente para que todos na carruagem possam dizer: eu estive lá. Há então quem demore onze estações a expor detalhadamente a sua vida amorosa, não nos poupando a nomes e a diálogos relatados em discurso directo. Não é a voz que se eleva, é a vedação à volta da intimidade que se rebaixa, não como um convite mas como uma imposição. É estranho, não sei se há uma palavra para isto. Isto foi minutos depois de ter lido estes versos fabulosos: Por que razão deveria abrir os olhos,/ se o que me rodeia já está dentro de mim.* Malta muito diferente, portanto. Se um andava por ali a carregar o mundo dentro dos olhos, o outro parecia tão exterior a si próprio que ia atirando ao mundo tudo o que lhe devia ser íntimo. A moral da história é também um pedido: deixem-me ler-vos, não me gritem.

* Josep M. Rodriguez, A Caixa Negra, trad. de Manuel de Freitas (Averno)

25.4.09

i've seen all the demons that you got



A culpa, que não era minha, está desfeita. Isto não é exactamente verdade. As culpas, mesmo que não minhas, não se desfazem, não morrem, apenas se diluem no esquecimento, e por isso inventámos a redenção – para aceitar o indestrutível. Olhamos para trás de um modo diferente, e é tudo. Se até os cadáveres têm culpas. Esses são os piores, aliás; nunca se redimem.

because i know you got caught telling truths split in half



Se eu fosse puta, gostaria que os Dinosaur Feathers me escrevessem uma canção. Tenho este fraco muito publicitado por contradições, pela doçura emprestada às coisas mais erradas, e os tais rapazes de Brooklyn têm sido muito aplaudidos por mim por uma falsa canção de amor desapropriadamente chamada Teenage Whore. Quando os conheci melhor (ainda não há muito para conhecer) as palminhas continuaram, mas ainda me arrasto muito tempo pela tal gravação caseira sobre uma rapariga que, metendo-se literalmente ou não por maus caminhos, parece ser muito adorada pelos nossos rapazes. Quem não gostar de pássaros feridos, que atire a primeira pedra.

love will come soon (maybe)



Não é uma história de amor. Não dura sequer o tempo de uma paixão fugaz, o que não quer dizer que cheguemos a ver o fim da história. É um encontro de aproximações erráticas de um casal que não o é, depois de uma noite de sexo casual esquecida pelo álcool. Também se fala de raça, mas não como estão à espera. O filme é bonito sem se esforçar para isso, cru sem ser amador, quase documental. Não é romântico, não é duro, é apenas muito real no modo como filma a confusão silenciosa de quem sabe o que quer (a ele, a ela) apenas para os quinze minutos seguintes *. Mas, como é óbvio, comecei pelo fim. Devia ter dito primeiro que, enquanto outros foram encher a sala do IndieLisboa onde se exibia o Ballast, a muito badalada estreia de Lance Hammer, eu inclinei-me ao ponto da queda por Medicine For Melancholy (que mais dificilmente entrará no circuito comercial nacional), primeira longa-metragem de Barry Jenkins. Apetecia-me rever, neste preciso momento, esse discurso amoroso sobre futuros demasiado próximos.

(Apetece-me também dizer que, sendo bom, The Happiest Girl In The World é uma desilusão e o mais fraco dos filmes romenos por cá estreados nos últimos anos, percebendo-se mal as recomendações rendidas e insistentes de alguns críticos nos últimos dias.)

* Sobre isto fiquei entretanto a saber que o Jorge Mourinha tem um leitura diferente. Parece que viu um filme que "balança sem nunca cair numa corda bamba que se arrisca a atirá-lo para a irrelevância ou para o mero exercício de estilo". Das duas, uma: ou ele se enganou ou eu fui enganado.

22.4.09

i see dead people



Morreu um dos meus heróis, o que estranhamente nada altera. Alguns mortos são muito difíceis de matar e não me parece que J.G. Ballard tenha planos para se tornar menos presente. Ele fazia de cada livro um laboratório com a inexactidão certa para questionar a natureza humana. E nunca foi particularmente misericordioso. Que o digam as personagens perdidas de Crash, para quem o quotidiano automóvel não é um objecto utilitário mas um espaço claustrofóbico de desejo, ao qual se procuram ligar em definitivo, num acidente absoluto. Mais do que uma extensão do seu corpo, o automóvel é o espaço que o infecta, tal como o corpo possui o automóvel, como um vírus. É difícil ser-se uma personagem de Ballard. O que move as personagens de Crash é o desejo, o desejo como substituto da razão. Quando Ballard apelida o seu livro de pornográfico está a identificar um dos seus atributos essenciais: a violência de Crash, o choque dos corpos, o seu desejo desesperado, são tão explícitos que pouco resta para esconder. Isto não é nada que se desentranhe com facilidade. Não costumo participar em obituários e não será por esta pequena morte que Ballard deixará de ser o meu pornógrafo de cabeceira.

17.4.09

and now for something completely different



Nem acredito que estou a escrever isto, mas no meu caminho para a santidade vejo-me obrigado a confessar pecados vários, incluindo o meu guilty pleasure mais recente, culpado ao ponto de ser uma música da Britney Spears. Fui investigar, que é o que se faz com as anomalias, e chama-se If U Seek Amy. Estes actos de honestidade e desvario não se recomendam mas, antes que me internem, vou mais longe e digo que imagino perfeitamente a Santogold (moça que eu aprecio) a cantar aquela coisa e a ser elogiada por meio mundo. Daqui a pouco faço um post sobre música experimental para compensar. Ou não.

15.4.09

all things made lovely are doomed



Tenho um livro da Anne Sexton nas mãos e leio: If you put your ear close to a book, you can hear it talking to you. Perante um disparate destes, tomei a única atitude lógica e pus-me à escuta do livro, que me disse: All things made lovely are doomed. Terá sido um pouco cruel, porque de facto - do último beijo aos primeiros dias de inocência - não há nada de mais vulnerável.

citações de Anne Sexton, All God's Children Need Radios in No Evil Star (Michigan Press)

13.4.09

we will fix it, we will mend it



Antes da Sarah Kane e do Mark Ravenhill se tornarem conhecidos pela destruição de propriedade emocional alheia, já o Anthony Neilson andava à cacetada aos corações. No que toca à dor, é literal. O in-yer-face theatre começou aqui e ficou logo tudo queimado. Neilson não coloca em cena frases feitas mas é fácil cair-se em momentos de dolorosa familiaridade. Quem tem um passado, arrisca-se. Não há ali grande respeito pelo palco – a verdadeira encenação está na cabeça de cada um. Stitching, por exemplo, não nos confronta com a possibilidade do fim do amor, mas do fim de uma relação. Não é o mesmo; simplesmente às vezes não é possível, às vezes não basta, e Neilson sublinha-o em todo o texto. As palavras importam. Ali importam muito. A borracha só pode ser um dos maiores logros da humanidade porque demasiadas vezes as palavras não se apagam. Fazem estragos, e isso é algo que se remenda, se esconde, mas não se apaga. Abby até canta: we will fix it, we will mend it. Mas às vezes a intenção não basta.

Stu: I thought I did turn out to be a total cunt.
Abby: Did you?
Stu: I don't know. That's just what I took from you calling me a total cunt.


Anthony Neilson, Stitching (Methuen)

11.4.09

good evening, welcome to the party, please sit wherever you want



Eles juram na sua biografia delirante que os primeiros avistamentos dos Flotation Toy Warnings datam de 1760 e eu não duvido de uma única palavra. Não me atreveria, não depois de ter demorado anos a dar atenção ao que esta banda britânica dada a improbabilidades revela em Made From Tiny Boxes: I love unicorns/ I loved you once. São versos extraordinários: mantém-se a inocência após o desamor, e nós que pensávamos que esses adiamentos trágicos não eram possíveis. Claro que igualmente interessante é a falibilidade do que acaba de ser dito. Não sei se deviam deixar-me andar por aí a atribuir os meus significados aos objectos dos outros. Muito provavelmente, a canção reflecte apenas o facto do jantar desse dia – um estufado de fusili, pequenos pedaços de lombinho e cogumelos selvagens num refogado de cebola, alho e pimento verde regado a vinho branco – ter queimado.

8.4.09

and now i'm an old broken down piece of meat



Por falar em cinema, bem sei que o 7º Mandamento da Blogosfera diz claramente amarás Gran Torino acima de todos os filmes, mas às quartas-feiras dá-me para ser herege e eu, que até me disponibilizo a prestar vassalagem a essa obra maior, arrisco a fogueira para lembrar que, cegueira alheia à parte, o mais fundo filme dos últimos meses continua a chamar-se The Wrestler. Em ambos os casos, temos homens ainda não acabados mas a acabar, mas nesse caminho para o fim só um se deixou encurralar. Depois há um que escolhe um final dramaticamente digno e um outro, incompetente para viver, que se limita a deixar o coração explodir. Ternura por ternura, prefiro o segundo suicida a dançar com a filha antes de a perder de vez. Ao contrário do que vou dizendo, alguns medíocres comovem-me muito.

it gets into the heart and bang! they die



Não há nada como atingir o auge ao início para se valorizar o sucesso. Foi tão bom, não foi? Thomas Vinterberg, que depois da aclamação com A Festa recuperou a velha tradição de ser metodicamente alvejado com tomates maduros, sabe bem o que é levar a sua vida a andar de escorrega. Mas como muitos realizadores especializados em filmes desequilibrados, dá-nos sempre meia dúzia de cenas para sublinhar e guardar carinhosamente. O Amor É Tudo falha muito mas dá-nos a mais comovente epidemia da história do cinema: people are dying in the streets cause they miss each other. Claro que na realidade não se morre de amor ou solidão, mas de cansaço. Mas com ou sem equívocos, um filme que acusa tão cruamente os pequenos abandonos quotidianos merece ser espancado com jeitinho.

5.4.09

maps



O drama mais habitual não é, como se diz, escolher a direcção numa encruzilhada, mas reconhecer esses lugares definidos por possibilidades. Parecendo que não, é muito fácil estar-se perdido numa linha recta.

4.4.09

words can never make up for what you do



Ela pediu-me para explicar mas foi a Olga Roriz que lhe descreveu o lugar de onde vem a minha adoração pela dança: O corpo é uma escrita, é um discurso como outro qualquer. Digamos que é um pouco gago, às vezes é difícil entendê-lo. Não é contínuo e isso é que às vezes torna difícil a sua leitura. Está sempre a desistir de se exprimir.

Olga Roriz citada por Elsa Garcia, Olga Roriz: O Corpo é uma Escrita in Umbigo 02

don't think twice, it's alright



Ontem vi na televisão um dirigente do Bloco de Esquerda prestar declarações. Não imagino o que terá dito porque a minha atenção estava toda reservada ao que se via por atrás: a bandeira do partido e o logotipo do McDonald's. Há quem tenha visto ali dois extremos, eu achei muito apropriado. Entre o franchising de hambúrgueres e o franchising de ideias há uma certa distância, mas vi ali descrita, de um modo invulgarmente sucinto, a razão pela qual serei sempre apartidário (o que é muito diferente de apolítico). Não é que não goste de hambúrgueres ou não vote em partidos, mas nada ali é muito saudável.

2.4.09

time is all that keep us blind



In Advance Of A Broken Arm é o nome de um ready-made de Marcel Duchamp que aparentemente não passa de uma pá de neve. Ao confrontar o título com a imagem da pá, Duchamp alude ao utensílio como prolongamento do corpo e ao braço humano como utensílio, invertendo a relação do homem com as ferramentas que cria e demonstrando que o homem também é inventado por aquilo que inventa. Ser um indivíduo é ser essa transformação constante. Isto é tudo muito interessante mas estou a divagar, porque o que eu queria mesmo dizer é que, mesmo que só tenham descoberto agora a Marnie Stern, não deviam ignorar o anterior In Advance Of The Broken Arm, álbum com título mal copiado e lugar encantado sem fadas e com algum noise onde principalmente a música com o título mais comprido – Put All Your Eggs In One Basket And Then Watch That Basket!!! – é também um agente altamente infeccioso. Eu não arriscaria.

1.4.09

i'm just the hypnotist; you're the stars of the show



Como as pessoas são muito minhas amigas, avisaram-me que as minhas opções editoriais no último post talvez não sejam muito decentes, poderão mesmo levar a que eu seja mal entendido. Isso lembrou-me uma história:

Hypnotist: I'll let you in on a secret. I – I want this show to be a good one. I was doing a gig just last week. Everything brilliant. Everyone hypnotised. Everyone doing everything I suggested. And just before the end of the show, I, er, I slipped off the stage, arse over tit. And the last thing I said before I landed was, 'Fuck me'. Couldn't sit down for a month.*

Espero que tenha ajudado.

* Tim Crouch, An Oak Tree (Oberon Books)

my daily routine



Há palavras que são todo um programa de inutilidade. Há quem repudie veementemente as acusações e jure solenemente a sua verdade. São verdadeiros clássicos. Mas a vida quotidiana poupa-se muito a advérbios de modo. As coisas limitam-se a acontecer efectivamente. Por exemplo: quando há alguns meses me disseram: o seu computador morreu, eu sabia que não havia qualquer palavra a acrescentar. Agora dizem-me do seu sucessor: é a motherboard. Isto, para mim, seria o mesmo que dizerem: é o motor do carro, que seria o mesmo que não me dizerem nada. Presumo que o quotidiano seja também isto: um lugar de tragédias banais em que podemos sentir o mundo desabar por causa de pequenos objectos cujo funcionamento desconhecemos. Não é que me vá marcar a vida, mas hoje é o fim do mundo.