29.3.09

everyone knows it (but me)



O problema com a ignorância é o meio termo. Toda a gente sabe que ignorância é felicidade mas, se lerem o folheto de instruções até ao fim, está lá claramente escrito: exige-se dedicação total. Quanto menos se sabe, menos se questiona, por amor de deus não se ponham a pensar. A ignorância é um uniformizador mais poderoso do que a lixívia e, tal como a lixívia, tem as suas aplicações. Não dá é para seguir em frente com um sorriso permanente sabendo-se demasiado. É por isso que eu não entendo a militância partidária.*

* mas tenho o maior respeito por males necessários, como partidos, impostos e óleo de fígado de bacalhau.

27.3.09

simon says



If you don't know the difference between what you need and what you want, just don't open the door.

Simon Block

rubber ducks



A verdade é que eu não faço a mínima ideia do que dizem. Não sempre, mas numa boa metade das vezes reparo em todos os detalhes de uma canção menos nas palavras. Isto quase me envergonha mas a culpa é da infância, das canções trauteadas em línguas desconhecidas. Nem tudo o que não se entende nos é vedado, o que é particularmente óbvio na música. E fica o hábito. Claro que a crueldade do crescimento está na lucidez e foi apenas uma questão de tempo até às primeiras desilusões. Actualmente tenho uma saudável relação esquizofrénica com as palavras nas músicas. Tanto me devoto profundamente por elas como sem elas. Mais honestamente: contra elas. Há um ponto a partir do qual quero muito ignorar as palavras, tratá-las como mais um instrumento e adiar o dia em que vou descobrir que aquela frágil canção de desamor, que até dediquei em pensamento a alguém, fala de patinhos de borracha.

26.3.09

what a horrible sound, what a sickening tone



Eu bem sei que é cedo, que ainda agora fiz exageradas considerações sobre a melhor nova banda de não sei quando, mas tenho mesmo que me interromper para vos dizer que a melhor banda de 2009 durante as próximas duas semanas serão os Bodies Of Water, sobre os quais haverá com certeza muito a dizer, mas agora estou a ouvi-los em loop e não me apetece mesmo nada pensar nisso.

25.3.09

all you need for a movie is a gun and a girl and an audience



Os filmes do Godard falam para o lado, é uma coisa que me irrita. Sempre a cochichar com o espectador, a chamar-lhe a atenção para o brilhantismo de cada cena, olha agora, viste? A certa altura cansam-se e, de cigarro no canto da boca, apontam-nos uma arma. A arma até pode ser um rosto em lágrimas, mas isso não interessa nada. Não demora muito até que voltem a substituir a arma pelo indicador, que já aponta à tela, olha agora, olha agora, viste? Ocorreu-me isto no outro dia, mas entretanto revi Os Tenenbaums do Wes Anderson, uma das grandes obras contemporâneas (eu adoro aquilo, não imaginam quanto) e o filme com mais piscadelas de olho por minuto ao espectador, e reconciliei-me. Não parecendo, isto até faz algum sentido.

24.3.09

my girls



Não me perco por aforismos mas gosto da simplicidade com que se resumem partes imensas do universo:


onde há raparigas há
roupa interior de molho
água encarnada nos olhos

Bénédicte Houart, Reconhecimento
(Cotovia)

(fotografia de Rita Rocha)

modern witches



A melhor nova banda de dois mil e oito não lançou nenhum álbum, não tem qualquer vídeo oficial, não andou em digressão e a atenção que recebeu da imprensa tende simpaticamente para o zero. Resumindo, mal existiu. Mas o escândalo, onde supostamente me apanham em crime de exagero, está num número: cinco. As Effi Briest ainda são apenas cinco músicas e nem mais uma. Há um ano que me bastam para dizer que estas meninas são o que de melhor veio nas colheitas de Brooklyn (exacto: muitas vozes, cem ou duzentos instrumentos diferentes - não contei, perdi-me - e um género musical fugidio). Mas acontece que me apaixonei exageradamente por elas e também pelas Rings pela mesma lindíssima estranheza e por me enganarem tão bem e me deixarem a pensar que não se pode ser mais genuíno do que isto.

23.3.09

god-willing, i will be looking at you in your bra and slip again



Como anda meio mundo entretido com a página 161 e ninguém me perguntou nada sobre o livro que eu ando a ler, vim aqui deixar três frases que indisciplinadamente se dividem pelas páginas 34 e 35 de The Beauty Queen Of Leenane (cá voltarei) de Martin McDonagh:

Well, Maureen, I am 'beating around the bush' as they say, because it is you and me I do want to be talking about, if there is such a thing now as 'you and me', I don't know the state of play. What I thought I thought we were getting on royalty, at the goodbye to the Yanks and the part after when we did talk and went to yours. And I did think you were a beauty queen and I do think, and it wasn't anything to do with that at all or with you at all, I think you thought it was.*

Não é o ultimo parágrafo do Ulisses mas quando conhecerem a Maureen vão perceber que isto é tudo muito bonito.

* Martin McDonagh, The Beauty Queen Of Leenane in Plays: 1 (Methuen)

22.3.09

the architect



A personagem mais detestável de Baile de Outono é, fatalmente, um arquitecto. O melhor que se pode dizer é que é sua a melhor cena, uma dança embriagada que poderia ter sido coreografada por Wim Vandekeybus. Não vou denunciar o homem e desatar a contar tudo, mas se imaginarem a imagem estereotipada de um arquitecto e a arrefecerem até congelar, terão uma ideia. Como membro de tão infame grupo, talvez eu devesse ter uma postura construtiva e destruir a frase feita. Acontece que já vi o suficiente para me calar e não consigo não me enternecer com diálogos como este:

- Sou arquitecto, não sou agente imobiliário.
- Percebo, és maníaco.

can't stand up for falling down



Para não correr o risco de ser original, continuo a bater a mesma eterna tecla das vidas todas fodidas blá blá blá todos a tentarem erguer-se e no fim fica tudo na mesma. No chão. Andei então a comover-me na sala de cinema mas deixem-me que vos diga que também o humor é delicioso no Baile de Outono/ Sügisball de Veiko Õunpuu. O nome esquisito vem da Estónia e passou despercebido quando se estreou há alguns meses. É muito feio ignorar um filme tão bonito e, já agora, é muito estranho reconhecer que é tão bonito um filme tão feio. Tudo por ali dói. Mas não há quem não tente. A redenção que nunca chega a sê-lo começa por aqui mas também não se ignora como cada plano é deslumbrante. Não há fracção de segundo, por muito desoladora, que não se queira levar para casa. Já no fim, diz-se Estes edifícios não retêm o passado. Talvez porque foram construídos a pensar no futuro. e, mesmo não sendo verdade, faz todo o sentido que o desejem aqueles que durante duas horas andaram desesperadamente solitários pela tela.

20.3.09

i'm too tired to be honest but you could just be with me



Começando pela burocracia: Sleeping Around é uma peça em 12 actos escrita num processo caótico pelos então muito jovens Mark Ravenhill, Stephen Greenhorne, Abi Morgan e Hilary Fannin. Da primeira versão aproveitou-se uma única linha e da última disse-se que era um exercício falhado. Não terá sido exactamente assim. Recomeçando: Sleeping Around é o título pouco piedoso de um retrato fragmentado das relações amorosas no virar do milénio. A referência ao milénio é um gesto de simpatia. A verdade é que isto já andava tudo fodido há algum tempo e não parece ter mudado. Estamos a falar de um lugar cruel. Estamos a falar de histórias onde o desejo é sempre menor do que a necessidade. No momento mais triste, há alguém que implora ao seu amante com sida: fuck me. Mas ainda que por ali as frases andem soltas como balas, o que mais nos atinge é a proximidade. É tudo muito quotidiano.

Greg: What we want doesn't matter. Desire doesn't alter the facts.
Helen: What if desire is the fact? What if desire is the only fact that matters?


Mark Ravenhill, Stephen Greenhorne, Abi Morgan, Hilary Fannin, Sleeping Around (Methuen)

19.3.09

we were talking about mixed feelings



Ele, checo, interrompe-me e diz que escolheu a Alemanha para viver, que se sente em casa, que os dias não são maiores mas são mais fundos, mas depois hesita, diz que apenas o confunde um pouco esse carinho vago pelo país que lhe matou a maioria da família no tempo em que se queimavam livros. Eu calei-me.

18.3.09

someone told me not to cry/ now that i'm older/ my heart's colder/ and i can see that is a lie



Fomos armados de lágrimas por alguma razão.

14.3.09

run run you silly ghost



O meu problema com as ausências não é tanto serem impossíveis de esconder como se revelarem tantas vezes uma pontuação sem sentido, uma pausa desastrada no meio de uma frase que se dizia urgente. O que mais dificilmente perdoo é esse meu erro gramatical. Se é evidente ou não, é secundário.