how dare they brandish their hunger at us like a sword?
Acto I: Ela dança, é óbvio que dança, porque há uma fome. Mas onde se espera o sorriso, há um pouco de desespero. Antes houve um corpo que se fechou estrondosamente e agora há o corpo dela a mover-se freneticamente como se a velocidade negasse a dor. Mas na canção canta-se: you're not that tough. É um aviso: partem-se os corações que entristecidos tentam ser indiferentes. E durante esse tempo em que aquele corpo rodeado de olhares é o centro do desejo, o centro daquela cena está ausente. Ou pelo menos é o que imagino quando ouço a The New Sound das Capricorns.
Acto II: As Capricorns são a banda pop perfeita que todas as bandas com teclados dos anos 80 quiseram ser e não conseguiram. Isto é a tese incompleta. O que realmente importa tem muito mais a ver com a tal rapariga que dança o desamor ao ritmo dos seus teclados. As Capricorns cantam como se estivessem no chuveiro, criam melodias a roçar o trash pop e levam tudo o que têm – a banalidade do quotidiano, com as suas verdades instáveis e os sentimentos do momento, toda aquela urgência sem direcção – para a cave onde inventam canções. E então o corpo dança ou dói-nos a um ponto que só se alcança com o que é genuíno. Não há ali grandiosidade nenhuma, é-nos tudo muito familiar. Demasiado próximo. Daí essa sensação de lâmina encostada ao peito. Poesia, portanto.
oh didn't we have fun, didn't we have a blast, the best time of our lives
Diz que não, se puderes, mas sabes que não podes. Assim mesmo, com todo este exagero. Admite que deixou há muito de ser um poema. Que é um livro não escrito imenso e mais fundo e além de toda a dor. Que um ano pode não medir nada mas todos os pretextos são bons para abrir o peito ao mundo. Claro que dói. E voltavas atrás? Um ano. Um anoonde couberam muitos anos. Percebes que isto é um beijo?
No more photos. Surely there are enough. No more shadows of myself thrown by light onto pieces of paper, onto squares of plastic. (…) Turn the page: you, looking, are newly confused. You know me too well to know me. Or not too well: too much.
Desejo é uma das palavras em Wong Kar-Wai. A outra é desencontro. O que se ouve resume-se assim: a música é uma personagem, as palavras sucedem-se aparentemente banais mas são como poemas e o desejo é sempre mudo. Em momento algum se ouve uma personagem confessar a outra o seu desejo. As poucas confissões são-nos ditas em voz off e nunca são lineares. As personagens de Wong vão encontrando o amor mas são sempre inábeis, mesmo quando parecem fatais. Mas o que importa, o que marca, é o desejo. O desejo é uma questão de distância. E Wong enfatiza essa certeza em cada gesto de cada personagem. O modo como Wong filma torna o desejo palpável, de tão denso. Os gestos das personagens são contidos, carregam toda a consciência de um desejo reprimido. Não há uma declaração de amor. Não há um único beijo. E é por isso, muito mais do que por todas as distracções que têm sido ditas, que o tão esperado My Blueberry Nights será sempre um marco para Wong Kar-Wai. Para que percebam o que pode um beijo.
Devíamos reservar aos poemas tudo o que não cabe no papel. Tudo o que nos excede. A existir uma regra, será esta: os poemas são lugares incompletos e inexactos. São declarações de incêndio e sabemos bem como tudo o que se segue é incerto, todos aqueles destroços queimados. A existir uma regra, será esta: no fim de um poema, as mãos estarão cobertas de cinza: Era uma biblioteca poética. Uma biblioteca que podia arder. Ainda não li melhor definição de sentido poético do que esta de Vasco Gato em Omertà. Poder arder.
Aqueles que responderam à pergunta que eu não coloquei com a hipótese b) Hal Hartley é incomparável porque escreve argumentos geniais, estão obviamente enganados. Hal Hartley escreve sempre argumentos de treta. Há sempre histórias inverosímeis, conspirações mal construídas e reviravoltas improváveis. O que é perfeito. O que interessa são as personagens – tudo o resto é um pretexto. As personagens de Hartley são isso mesmo: personagens, e estão sempre em queda. Habitam o quotidiano mas nunca são vulgares, nunca são a rapariga da porta ao lado ou o desconhecido indiferente na rua. Ninguém por ali ama ou morre naturalmente. Hal Hartley não realiza, encena. E se pressentimos uma certa artificialidade – os gestos oh tão dramáticos, os diálogos como que sangrados em palco – é porque tudo o que ali nos é dado é um banalíssimo espelho que descobrimos no fundo do mais estranho embrulho. A verdade é que Hal Hartley mente muito para chegar à verdade. (E a resposta correcta só podia ser a c) Hal Hartley é incomparável porque faz da fragilidade humana um porto de abrigo.)
Quis regressar com os Bowerbirds. Quis regressar com companhias frágeis. Estou farto de regressos em força, de intenções firmes e palavras medidas rigorosamente. A verdade é que me intrigam os que se afogam em partes iguais de desespero e doçura e não os que juram conhecer todos os mapas que assinalam terra firme. Enfim, feitios. Os Bowerbirds são três náufragos, diz-se sempre quantos são, não sei porquê, como se o naufrágio se tornasse maior ou mais fundo. A menina está lá porque tinha que estar lá para dar o toque de redenção com a voz de papoila e o som do seu acordeão vermelho. A outra voz é de desencanto, mas há aqui uma crua consciência de que nenhuma tragédia é completa. O que resta, aquele corpo a erguer-se das cinzas, é o que eles cantam com um sorriso que não chega a sê-lo. Tudo muito estranho.