8.7.09

falling in love with a movie character



It was a new kind of love: my first screen crush. (...) I managed to transform my bored desire into a total fantasy. (...) I can't share my life with a fantasy, but most relationships are built just on just that.*

É muito cruel dizer que anda por aí demasiada gente de mão dada com um pedaço de celulóide. Ainda bem que eu não disse nada.


*citação de Cum Quietly or Not At All in Strangeland, de Tracey Emin (Sceptre, 2005)

(Rudolfo Valentino e Vilma Bánky num fotograma de The Eagle, de Clarence Brown, EUA, 1925)

here comes the ice cream man



Trouxe guloseimas do quiosque no último domingo, provando que se aprende quase tanto a comprar jornais como a lê-los. Bastou um olhar distraído para reconhecer o longo caminho que a língua portuguesa e a igualdade de géneros ainda têm que percorrer neste país. Na capa de uma revista, Cristiano Ronaldo exprimia a sua indignação: Não admito que ninguém moleste a minha mãe, e realmente a senhora também é gente, dêem-lhe uma oportunidade. Quase ao lado, podia ler-se mais uma publicidade digna dirigida às mulheres e que dispensa comentários: Clix.pt é a morada dos assuntos das mulheres. Onde é fácil encontrar as últimas do jet set, o horóscopo, a sexologia, a moda, os conselhos de beleza e as receitas Nestlé. Os quiosques estejam convosco.


(fotograma do vídeo de Today, dos Smashing Punpkins, por Stéphane Sednaoui, 1993)

3.7.09

call it by name



Ainda o medo: não lhe dêem outro nome. Já deviam saber como ele nos devora se o confundimos com a família.


(fotograma de The Ruins, um filme de terror mauzote de Carter Smith, EUA, 2008)

2.7.09

you little demon



Metade do que Freud explicava não tem explicação. Foi bom enquanto durou mas já não podemos desculpar tudo com a mãe ou com o tamanho do dedo mindinho. Fazer corninhos enquanto se debate a nação, por exemplo. Eu acredito que tenha havido sinceridade no gesto do ministro, que se é um demónio, é um demónio, e se é um erro de casting, é um erro de casting. Ele simplesmente não conseguiu segurar o mafarrico que há dentro de si. Repararam no sorriso? Delicioso. Ele só aceitou ser ministro para um dia poder viver aquele momento. E o seu percurso não o desmente.

adenda: Por outro lado, é muito mais importante sublinhar isto que ela disse. É ter cuidado.


(cartoon de Mark Stivers, muito provavelmente baseado no conflito interior de Manuel Pinho)

30.6.09

all those lovely lonely lovelorn fuckers



...I mean, I've heard tell that even the Devil remembered Heaven after he fell...*

Esta é a última linha de Terminus, uma maradíssima peça de Mark O'Rowe. Não se aborreçam, só quero mostrar que é possível contar o fim da história revelando apenas o começo: eram três e caíram. A e B e C estavam sentados no parapeito da sua vidinha de merda a sonhar com a redenção. Que acabaria por chegar, mas não como a esperavam. O papel deles é destruirem-se à nossa frente nos monólogos torrenciais (inesquecivelmente ritmados) que O'Rowe lhes escreveu. O nosso papel é assistir à queda acreditando com muito força que estamos do lado de fora. Eventualmente haverá quem esteja. Esses senhores podem levantar-se e ir embora. Os outros podem acompanhar as personagens e ir mordendo os frutos. Até ao fim, seja lá isso o que for.


*citação de Terminus, de Mark O'Rowe (Nick Hern Books, 2007)


(mais um fotograma - não me canso - de Valerie And Her Week Of Wonders, de Jaromil Jires, Checoslováquia, 1970)

29.6.09

this one goes to the fucks who fall



Tenho-me sentido perdido por não saber o que é um assunto sério. É um assunto onde morre gente? É um assunto que envolve investimentos estruturais para o país? É um assunto que mobiliza a sociedade? Pelo que vou lendo, parece que há quem o resuma assim e quem sou eu para os contrariar. Fico apenas com a impressão de que andam por aí muitos amputados emocionais, muitos desgraçados em queda sem dar por isso. O que me parece um assunto muito sério.


(fotograma de Daisies, de Vera Chytilová, Checoslováquia, 1966)

27.6.09

i care for nobody, no not i, if nobody care for me



Não fomos assim tão bem programados. O instinto de preservação é um bronco, tão rápido a desviar-nos dos obstáculos como incompetente a identificá-los. A ignorância, já se sabe, tende para a paranóia. Há ali muito músculo e pouco cérebro. Mas deve ser sedutor, tantos são os que nele cegamente confiam, tantos os que se ficam pelo medo próprio do gato escaldado. Tragicamente, a imobilidade nunca foi um caminho seguro. E é bem provável que a água já esteja fria.


(fotograma de Last Days, de Gus Van Sant, EUA, 2005)

25.6.09

pickpocket



A maioria das pessoas vai adquirindo palavras ao longo da vida. Eu tenho-me esforçado por perdê-las. Aos treze anos era muito provável que me pusesse a escrever sobre uma idiossincrasia qualquer. Hoje nem sei que essa palavra exageradamente feia existe. Juro. Há muita tralha à solta na língua portuguesa, muita inabilidade palavrosa sem uma ideia por trás. Mas o dicionário nunca escreveu um bom texto sozinho. Faltou uma influência inglesa que ensinasse os meninos a valorizar mais a linguagem do que o vocabulário, mas entretanto já por aqui andava a escola francesa a disfarçar a banalidade. Lamento muito que tanta gente me mate de tédio. Eu agradeço que me vão ao bolso, que é o que sinto quando leio um bom texto. O bom carteirista desampara-nos na medida certa e não nos tira nada que não estivesse a pedir para ser roubado. Visitem-no na prisão, merece.


(fotograma de Pickpocket, de Robert Bresson, França, 1959)

24.6.09

the oyster chokes in its own pearl



Por falar em reciclagem, tenho um carinho especial por campanhas políticas. Por ali nada se perde, tudo se transforma, a começar pelos slogans de óleos alimentares, aplicações financeiras e cremes anti-rugas. A política aprendeu com a ecologia a não subestimar a inutilidade. Os resíduos são cuidadosamente aproveitados. De vez em quando, há quem se ponha a introduzir conceitos bizarros, como verdade e humildade e, naturalmente, engasga-se. Convenientemente, a memória não vive no mesmo tempo que nós.


(fotografia que eu tinha mal catalogada e que não faço ideia de onde veio)

23.6.09

the blues came along and drove my spirit away



Nunca tinha ouvido nada assim. Como nunca tinha visto mãos que se movessem com aquela histeria controlada ou uma boca desdentada de ondem saíssem demónios tão embriagados. Son House era um desgraçado mas era um desgraçado genial, o que fez toda a diferença na altura de ser também um bêbado, um mulherengo e um arruaceiro temente a Deus. Os blues também começaram por ele e foi por ele que eu comecei os blues e por isso dispensou teorias e resumiu: os blues são sobre um homem e uma mulher. A resposta, no entanto, estava incompleta, ou não fosse ele um tipo assombrado, que viveu com a lentidão do caruncho e durou mais do que se suporia. Quando for grande, não quero ser assim, mas quero a mesma sinceridade. Já não é pouco.


(fotografia de Son House por alguém que nunca me foi apresentado e que talvez já esteja morto)

ouch



No menoríssimo Hollywood Ending, Woody Allen coloca na boca de Téa Leoni uma frase com subtilezas terríveis: Sim, eu sei lidar com ele, mas cansei-me de ter de o fazer o tempo todo.


(fotograma de Hollywood Ending, de Woody Allen, EUA, 2002)

22.6.09

big brother is so passé



Estou cansado de tanto receio. Há sempre mais um chip a contestar e consta por aí que há escutas, sigilos quebrados, perigosos cruzamentos de dados, câmaras indiscretas, e eu que pensava ver diariamente tantos indignados cidadãos a despirem-se metodicamente em público. Não tenho nada contra, também eu tenho deixado algumas peças de roupa na cadeira e a verdade é que adoro ironias. Fazemos um strip à janela e fazemo-lo com gosto. Mas queixamo-nos dos mirones. É tudo muito comovente. A verdade é que o big brother está aí mas é um menino. Espreita por cima do ombro e saca-nos uns dados estatísticos. Mas na devassa da própria vida, daquilo que somos, ninguém nos bate. Eu acho muito bem.


(fotograma de Nineteen Eighty-Four, de Michael Radford, Reino Unido, 1984)

21.6.09

things change each time i look at them



All I must do is push names into what is there the same as when I push my knife into the stomach of a hen.*

Conheçam a ignorante rapariga que se apropria do mundo pelos seus nomes. Fosse toda a ignorância tão ávida. Não tem nome, é a única personagem que não o tem. É apenas a jovem mulher em Knives In Hens, a sublime peça de estreia do escocês David Harrower. Não destoa no meio rural onde sempre acorda, mas é diferente de todos. É pouco mais do que analfabeta, mas a sua maior urgência é o nome de todas as coisas, de todos os momentos. É adorável e acossada e está certa de que um dia saberá como chamar ao hálito quente de um cavalo cansado ou ao som que uma mulher faz quando ninguém a ouve e é assim que se liga ao mundo - inventando uma linguagem, inventariando o que os outros ignoram ou facilmente esquecem. Nome a nome, o mundo é dela. Depois há quem, de tão atento, não saiba ver.


*citações de Knives In Hens, de David Harrower (Methuen, 1997)


(fotografia da representação de Knives in Hens, de David Harrower, no Bush Theatre, Londres, 1995)

19.6.09

ego is the most popular kid in his class



Não conheço nenhum lugar em que se comparem tantas pilinhas por dia como na blogosfera. Os assuntos são sempre muito sérios. Mas estou a desviar-me. Falávamos de recriação da adolescência, certo?


(fotograma de The Great Dictator, de Charlie Chaplin, EUA, 1940)

18.6.09

suspension of disbelief



Num jogo de futebol recentemente decorrido na minha cabeça, Pedro Lomba defrontou Pedro Lomba. Terminou com um empate que incluiu um auto-golo. Esta alucinação tem bibliografia: duas das suas crónicas no i, aquele jornal que eu não leio mas estou sempre a citar. Na última, Pedro Lomba dá um par de estalos aos que confundem ética com estética. Palminhas. Devo dizer que a luva dele é mais branca do que a minha. Mas numa crónica anterior tropeçou ao falar de paixão: Querem saber o que é estar apaixonado? É uma adolescência, uma recriação constante da adolescência. Não é. Essa embriaguez é também uma forma de lucidez, um passo em falso na direcção certa. As ingenuidades de cada um não são para aqui chamadas. Certo é que desviar o centro gravitacional do universo não é para crianças.


(era anónima, mas entretanto houve uma menina que me informou que a fotografia é da Anna Gaskell, o que muito lhe agradeço)

16.6.09

the bittersweet hereafter



Há uma cena espantosa em The Sweet Hereafter em que uma mão empunha uma faca demasiado próxima do rosto de uma criança. Dura uma eternidade. O que mais perturba é a expressão da criança, absolutamente plácida, enquanto nos olha fixamente. Quem vê o filme sabe que aquela lâmina está pronta para uma agressão com as melhores intenções. (...) Não devia ser preciso lembrar que já vimos esta história antes. Mas geralmente começa com alguém a beijar alguém. Estará lá tudo: a entrega e uma ameaça suspensa. Poderá não haver qualquer golpe, mas a lâmina estará pronta. Com as melhores intenções.


(fotograma de The Sweet Hereafter, de Atom Egoyan, Canadá, 1997)

14.6.09

there is a time for witches in houses of chocolate



A inocência é bonita e a infância é bonita e as duas morrem ao mesmo tempo. Depois disso são como morangos em Janeiro – pouco comestíveis.


(fotograma de Hansel & Gretel, de Pil-Sung Yim, Coreia do Sul, 2007)

riding with a ghost



Desconfio que o Francisco Louçã anda a cavalgar sem cavalo e ainda não reparou. Não lhe digam nada, não me parece que seja um tipo fácil de contrariar. Numa entrevista ao i, aquele jornal que ainda não o é, disse coisas do arco da velha*, não se sabe muito bem a quem. Ele julga que se dirige ao seu eleitorado, como se tivesse um, exactamente na mesma medida em que o herdeiro da Coroa cá do sítio julga que se dirige ao seu reino quando fala, só porque o seu bigode é descendente do fundador da nação. A Francisco Louçã parece bastar um resultado eleitoral, logo ele que gosta de lembrar que as pessoas não são números. Eu tenho medo dele, por isso vou ficar caladinho, mas apetecia-me explicar-lhe que o eleitorado dele tem aspas e olha para o Bloco de Esquerda de um modo puramente instrumental. Quando é útil. Eu sei, porque sou um desses vendidos à utilidade. Ele que se cuide.

* Coisas lindas, aliás: que é prioritário sairmos da NATO; que a guerra do Afeganistão não passa de protecção a um governo de traficantes de droga; que o Obama é um calculista eleitoral que não merece grande crédito; que o actual Governo foi a voz dos interesses económicos dominantes em Portugal (conceito demoníaco abstracto que até hoje não entendo - era capaz de jurar que esses interesses são do interesse de todos). Enfim, num país ideal, Francisco Louçã seria um demagogo; na realidade, é bem capaz de acreditar no que diz.


(fotograma de Monty Python And The Holy Grail, de Terry Gilliam e Terry Jones, Reino Unido, 1975)

12.6.09

naughty love



Eu não disse? Já pisei o risco. Mas a culpa não é minha, é das circunstâncias, por sinal muito indecentes e muito bonitas. O ultraje começou na minha competição com a Menina Limão pela melhor fotografia da Daisy Lowe, que até me foi apresentada por ela. Acabámos empatados nesta, em que aparece com o namorado. Devo ser muito pouco recomendável, porque gosto muito disto. Direi mesmo mais: acho a fotografia muito terna. Não é exactamente uma encenação, estão ali dois amantes num momento extremo de cumplicidade. A indecência é apenas ditada pelo olhar público.


(fotografia wow de Daisy Lowe e Will Blondelle pelo destravadíssimo Terry Richardson)

thank you



É arriscado. As intenções do Henrique Raposo eram com certeza as melhores, mas eu não sou de confiança. Estou sempre a abandonar a seriedade e da pior maneira - seriamente. Ainda o deixo ficar mal.

(Da série este gajo deixa-me embaraçado.)


(fotografia de Marion Cotillard por um desgraçado com dificuldades em enquadrar tanta histeria)