19.3.12

if you can't have the real thing you do all kinds of unreal things



Uma obsessão é um cerco, e todos se lembram dos cercos medievais onde não estiveram - tanto se expunham à fome e à peste e à espera os do lado de dentro como os do lado de fora. Por princípio, importa que a conquista não seja uma ruína.


(fotograma de Deep End, de Jerzy Skolimowski, RFA/Reino Unido, 1970)

17.3.12

the truth about cleaning



Esfregar uma nódoa é um acto de fé. Como desejo de eliminação, é também um desejo de substituição, de um tempo por outro. Mas o tempo não começa, o tempo já começou. E o que não começa pode ser removido, mas não apagado.


(fotograma de Zerkalo, de Andrei Tarkovsky, URSS, 1975)

7.3.12

you pull back the curtains and the sun burns into your eyes



Lembro-me de treinar o fôlego atravessando piscinas com o peito rente ao fundo mas ignorei durante muito tempo que é no meio de estradas que mais útil se revela a boca fechada prendendo o ar e a voz. Quem diz estradas diz estradas ou corpos sob ameaça de tempestade. Quando a direcção importa, o passo sustém-se com o fôlego treinado até que o céu se rasgue, mas então prossegue. Um corpo com uma direcção não sabe estar parado.


(fotograma de O Sangue, de Pedro Costa, Portugal, 1989)

5.3.12

but you will learn to mind me and you will learn to survive me



Inato não é o que nos acompanha desde o berço, mas o que dispensa a aprendizagem. É o desprezo por esta distinção que permite que tantos permaneçam escravos depois de terem sido eliminadas todas as mordaças e todas as vedações.


(fotograma de Manderlay, de Lars Von Trier, Dinamarca/Suécia/Holanda/França/Alemanha/Reino Unido/Itália, 2005)

2.3.12

no body is complete


Por favor apague o corpo. Não era o que estava escrito, mas foi o que li e por momentos foi pleno o seu sentido. Disse-nos ela que o corpo é um pouco gago, lembro-me sempre, ou lembro-me sempre que me falha a mão na mão no tempo certo ou a inclinação suficiente do peito. O corpo é uma escrita como outra qualquer, mas está-lhe vedada a mudez e a sua ortografia é tão mais difícil, somam-se traições atrás de traições em causa própria, e nunca lhe é permitido terminar uma frase e é quase insuportável essa suspensão antes do fim, a pontuação da frase sendo sempre o outro.


(excerto de Spiegel, obra-retrospectiva de Wim Vandekeybus, onde condensa algumas das suas principais coreografias, 2007)

29.2.12

so some of her lived, but the most of her died



A maior liberdade é a cama vazia. Já a liberdade maior é uma história completamente diferente.


(fotograma de A Fool There Was, de Frank Powell, EUA, 1915)

22.1.12

dieu sait quoi



E de repente já não sei se somos nós que olhamos as coisas, se são as coisas que nos olham, as imagens tranquilas em nós cinzelando o que não sabíamos que sabíamos. A gravidade não se ensina, reconhece-se.


(fotograma - roubado ao Czaradox - de Dieu Sait Quoi, de Jean-Daniel Pollet, França/Bélgica, 1994)

21.1.12

the dying swan


Não passa isto de uma desavença entre o dia e a noite. Todos os corpos sabem morrer mas nem todos sabem manusear as cinzas. Belos são os que por fome do outro se debatem com o chão, com o coração, com o músculo retesado pelo frio. Esperemos. O corpo exaurido assinalará o começo.


(Anna Pavlova, em 1925, a dançar The Dying Swan, sua criação a partir de Le Cygne, que Camille de Saint-Saëns lhe dedicou)

20.1.12

there's such tender wolves 'round town tonight



São seis letras na horizontal para fome canina, mas deixo os espaços em branco. É quase indecoroso que desconheça o que preenche esse vazio quando tão bem conheço o vazio que desperta essa fome que em duas palavras me descrevem. Mas há nessa ignorância uma utilidade. Cale-me eu agora, que as bocas não precisam das palavras para morder.


(fotograma de Blush, criação videográfica para coreografia homónima, ambas por Wim Vandekeybus, Bélgica/França, 2005)

8.1.12

in spite of wishing and wanting





Por muito que te dobres ou desdobres, aprenderás que a imobilidade é um esforço inútil e que o movimento será sempre um imperador sobre a Terra. Do mesmo modo, e porque falamos da gravidade exercida sobre os corpos, o início do beijo é anterior à aproximação das bocas e o risco está na demora ao espelho. Porque não há escolha entre a viagem ou o destino porque a viagem é o destino.


(fotografia de Bartók / Mikrokosmos, coreografia de Anne Teresa de Keersmaeker, 1986)

leap of faith



Falam-nos do temor de morder a maçã, mas ela foi já mordida e por isso pergunta-se agora se pode ainda ser corrompido o que já não é intacto. De tão óbvio o desejo, conclui-se que sim, que nunca se começa do princípio. Depois há quem divida o fruto à faca e quem o divida mordendo-lhe à vez a polpa. Estes são os que partilham o caroço. Ou seja: é a tua vez.


(fotograma da série Luther, criada por Neil Cross, Reino Unido, 2011)

26.12.11

blood red drama





A tudo o que lemos impomos legendas. Mas os olhos facilmente se enganam, facilmente se conduzem pela trela ao desastre. Aquele vermelho na toalha vagamente branca é a cor da romã ou a cor do sangue ou não. Os olhos estão sempre a decidir por nós o que não chegámos a saber. Nunca precisámos de ilusionistas para nos entregarmos à ilusão.


(fotogramas de Sayat Nova, de Sergei Paradjanov, URSS, 1968)

24.12.11

love is a solution, on condition that it is true


Ou quando o Jean-Luc foi buscar o seu velho tutor de filosofia para fazer uma revisão da matéria dada.


(Brice Parain e Anna Karina num excerto de Vivre Sa Vie, de Jean-Luc Godard, França, 1962)

this is how we walk on the moon



Quebram-se os olhos contra as coisas que não são coisas que se quebrem. O mecanismo é este, mas ninguém diria, ninguém repara, porque o desabamento começa do avesso, e os tremores são minúsculos e são minúsculos os passos em direcção ao tremor seguinte. Sempre soubemos, pelo menos desde que aprendemos a gravidade, que o que nos puxa à terra é invisível.


(fotograma de Pierrot Le Fou, de Jean-Luc Godard, França/Itália, 1965)

18.12.11

in new york was still winter but the air was full of spring


Portanto, as estações também se fazem com as mãos, também são lugares nos mapas que havemos de desenhar e levar sempre na algibeira.


(excerto de Walden/ Diaries, Notes And Sketches, de Jonas Mekas, EUA, 1969)

two hands opening a door



A venda nos olhos é uma redundância. Não fosse a visão uma ilusão e perceberíamos que todos os passos são dados no escuro e assim o são os passos de quem agarramos a mão. Mas se o desconhecido desperta o medo, também desperta o espanto.


(fotograma de L'Homme Qui Ment, de Alain Robbe-Grillet, França/Checoslováquia, 1968)

14.12.11

children of the night



Os pescoços não estão a salvo, chegam sempre tarde à noite onde já os esperam os monstros. Mas se entramos em noites habitadas, importa que atentemos às sombras sem que aos passos furtemos o caminho. Difícil é aprender a iluminar a noite, encontrando o solo firme para o passo que se segue, mas revelará a claridade que os apelos do passado são afinal gritos de crianças assustadas. E todas respondem pelo nosso nome, e todas podem por nós ser caladas.


(fotograma de Nosferatu: Phantom Der Nacht, de Werner Herzog, RFA/França, 1979)

13.12.11

wishlist for tonight



A língua sobre a língua assinalará o começo. Não me bastam estas mãos para desembaraçar-te o corpo - ao amor perante o corpo não basta um caminho - e chegarei por isso inteiro aos lugares onde me permitirei a demora até que morra brevemente por exaustão. A língua sobre a língua assinalará o fim, que nunca é um fim por sempre ser um recomeço - ao amor perante o corpo não interessa a conclusão mas a conclusão de que o meu desejo é prévio, simultâneo e posterior à tua pele.


(fotograma de Une Femme Mariée, de Jean-Luc Godard, França, 1964)

7.12.11

everything in its right place



Ao contrário do que a ficção faz supor, nos momentos mais altos, quando o nosso mundo se foca num ponto, não ficamos cegos para o que nos rodeia. A verdade é que então tudo nos interpela, tudo é invocado num só canto. É um tempo de fome e portas escancaradas, não de clausura e saciedade.


(fotograma de Il Deserto Rosso, de Michelangelo Antonioni, Itália/França, 1964)

6.12.11

the tree and the apple



No fim do livro ninguém morre mas nomeiam-se duas necessidades dramaticamente prementes do nosso tempo: a do calor e a do esquecimento.* Não estou nada certo disto. Uma necessidade é uma procura e quanto mais se procura o esquecimento, mais se sublinha a impossibilidade dessa escolha. Ainda que quase tudo apodreça, nunca nos encontramos assim tão longe do lugar de onde partimos.


* Cesare Molinari, História do Teatro (Edições 70, 2010)

(podem perguntar-me de onde vem a imagem que eu não digo de onde vem - porque não sei)

5.12.11

the pool is always empty



Há duas maneiras de ler um ensaio: como uma pergunta ou como uma resposta. Esta é a maneira errada. Perigoso não é que se tome por nossa a verdade de outro, mas que se caia na ilusão de que a verdade se aprende, quando na verdade se conquista.


(fotograma de The Swimmer, de Frank Perry, EUA, 1968)

2.12.11

oh what fun it is to ride in a one-horse open sleigh



Desnorteado é aquele que perdeu o norte, tanto quanto desorientado é aquele que perdeu o oriente, e ambos estão a leste, repentinamente soterrados numa insolúvel contradição. Acontece muito a gente isolada pela neve, pela dúvida ou pelo erro. O que se aconselha é a escolha avisada de outro referencial que não a linguagem, mais útil a abrir portas do que a rasgar caminhos.


(fotograma de Antigravitation, de Audrius Stonys, Lituânia, 1995)

30.11.11

it's nice to be home


Mas também em casa é preciso cuidado quando se corre com as necessárias tesouras.


(excerto de Daisies, de Vera Chytilová, Checoslováquia, 1968)

missing pieces



Neste mesmo dia, há 37 anos, Werner Herzog escreveu no seu diário de viagem: Pelo caminho tinha apanhado folhas soltas do chão, é o caderno principal de uma revista pornográfica que alguém rasgou em tiras. Tento reconstruir as imagens tal como elas inicialmente seriam, de onde vem este braço que toca noutro, de onde vêm estas pernas entrelaçadas? *

Tudo o que é estranho, é estranho pela incapacidade de resposta à pergunta: como se chegou até aqui? Estranhamos o desfecho apenas porque desconhecemos o percurso.


* Werner Herzog, Caminhar no Gelo (Tinta da China, 2011)

(fotograma de Fitzcarraldo, de Werner Herzog, RFA/Peru, 1982)

29.11.11

beginnings come first



E leio ao cummings: sempre a resposta mais bela que cria uma pergunta ainda mais bela*, o que faz supor que seja uma pergunta igualmente assustadora, porque pressupõe um futuro. E no entanto é bela a ideia do tropeço se ajudar a afirmar o passo.


* e. e. cummings, eu:seis inconferências (Assírio & Alvim, 2004)

(fotograma de The Lighthouse, de Mariya Saakyan, Rússia/Arménia, 2006)

the woods are lovely, dark and deep



Se a primeira metáfora for o bosque, a segunda será o incêndio. Espero-te onde tudo arde, não era assim quando me aventurei por entre as árvores, não se encandeavam na luz excessiva os olhos antes cegos. Mas dos maiores mistérios não se espera senão que nos iluminem.


(fotograma de Neko Mimi, de Jun Kurosawa, Japão, 1992)

first there was a fog



Lutador é aquele que crê - não sendo o contrário necessariamente verdade. Ambos começam nos limites da circunferência, mas só um se move em direcção ao centro, movendo-se o outro como um objecto em órbita. Portanto, o que distingue os crentes é o movimento.


(fotograma de Ode, de Kelly Reichardt, EUA, 1999)

27.11.11

dreams, wishes and dellusions



O que não pode ser começado existe – ou seja, interfere – desde que se reconheça o que não pode ser começado. Assim a impossibilidade não impede a existência mas a construção a partir dessa consciência. A distinção dura entre o real e o imaginado é um erro grosseiro, fazendo o segundo parte do primeiro.


(fotograma de Flaming Creatures, de Jack Smith, EUA, 1963)

22.11.11

the nest



Os pássaros sabem-no melhor, não precisaram aprender a fixar e rodear o centro. Mas aprender com quem sempre soube é perigoso, os seres perfeitos não sabem inclinar o chão ou expor o centro à ferida. Isto nunca teve a ver com segurança.


(fotograma de The Lighthouse, de Mariya Saakyan, Rússia/Arménia, 2006)

through fire below and fire above and fire within



Se julgar como excessivas as presenças pela asfixia a que me submetem, como julgar quem me carrega o peito com o peso do mundo? (...) Eu julgo-te, tu sentencias-me. É justo.


(fotograma de Une Femme Mariée, de Jean-Luc Godard, França, 1964)

21.11.11

to build a home



Primeiro o arquitecto deve aprender a ignorar a parede. É a primeira lição sobre o que é um espaço. Não há material que iguale os sentidos, os sentimentos e as memórias. Experimentem o beijo no meio da sala e verifiquem se não se altera irremediavelmente aquele espaço, se não ficará para sempre como uma nódoa o beijo no centro.


(fotograma de The Lighthouse, de Mariya Saakyan, Rússia/Arménia, 2006)

construction and building materials



Devolver à casa o teu corpo para que me habites. Isto anda tudo ligado.


(fotograma de The GoodTimesKid, de Azazel Jacobs, EUA, 2005)

20.11.11

partners in crime



Bonnie Parker: You know what, when we started out, I thought we were really goin' somewhere. This is it. We're just goin', huh?
Clyde Barrow: I love you.
*


* in Bonnie And Clyde, de Arthur Penn, EUA, 1967

(fotografia de Bonnie Parker e Clyde Barrow, em 1933, de autor desconhecido)

your heart grows gold as your devils grow old


Porque habitam abismos escavados com as nossas mãos, sabemo-los nossos, mas também os demónios envelhecem. O passado define-se pelas arestas. Porque a faca perfura, há quem erradamente pense que está ainda afiada a gasta lâmina.


(vídeo de Vice Cooler para Devils Hearts Grow Gold, dos La Sera, incluído no álbum La Sera, 2011)

17.11.11

the haunting



Quem sou? Se excepcionalmente apelasse para um provérbio: com efeito, o sentido de tudo não poderia resumir-se em saber quem 'assombro'? Devo confessar que esta palavra me desorienta e tende a estabelecer entre mim e certos seres relações mais singulares, inevitáveis e perturbadoras do quem em princípio supunha. É uma palavra que (...) alude, sem margem para dúvidas, ao que foi preciso que eu deixasse de ser a fim de ser 'quem' sou.*

E eu, talvez indevidamente, junto-me ao autor e assino por baixo.


* André Breton, ao começar o primeiro parágrafo de Nadja (Estampa, 1971)

(fotografia de Leon Levinstein)

16.11.11

follow the crumbs



Por estes dias, a demagogia serve a todas as partes. A bem da nação e porque é preciso poupar, diz o governo, arrasam-se sectores inteiros, como a cultura; a bem da nação e porque é preciso moralizar, diz a oposição, desiste-se de um debate sério. As migalhas justificam tudo. Não é que todos confundam a árvore com a floresta. Mas parece haver uma maioria a fingir que sim. A cegueira imposta é uma tragédia, mas a que se escolhe é uma arma.


(fotograma de Invasion of the Body Snatchers, de Philip Kaufman, EUA, 1978)

ceci n'est pas un amour



As palavras não são só palavras mas as palavras que forem palavras que a si mesmas se bastem devem ser atribuídas a momentos menos solenes. A escrita deve ser um treino para a insuficiência como o beijo deve ser um treino para a demasia. É tudo o que é necessário saber sobre os reencontros: os corpos mudos tomando-se de assalto.


(fotograma de Me And You And Everyone We Know, de Miranda July, EUA/Reino Unido, 2005)

15.11.11

now it's done, watch it go


O que não tem remédio remediado está, e por isso convém que o desejo não enferruje. Os corações com pouco uso apodrecem e ainda não se apurou um método natural de prolongar a arritmia, mas sabe-se que os melhores acidentes não se dão a quem os não procura. Por estranho que pareça, não é estranho que também o acaso seja do domínio do livre-arbítrio. Se soubessem.


(vídeo publicitário de 1915 para um corpete, com Peach Plum Pear, de Joanna Newsom, como música de fundo)

8.11.11

if you want me let me know where do you wanna go



Acercam-se tempestades e eu não acredito em abrigos. Mas acredito no medo das chuvas e no seu contrário, nos corpos lançando-se a nado nas cheias. A utilidade dos pés enxutos é como a de qualquer outro desastre. Depende muito. Mas leve-se debaixo da língua um nome como uma instrução e não se extinguirão as travessias. Faria desta evidência um salmo.


(fotografia de Filipa Castro)

7.11.11

treasure maps



Escrevo-te sem respeitar as linhas, salto dos teus olhos para a tua boca para o teu peito encolhendo-me sobre o beijo.*


* autor meu conhecido

(fotograma de Boy Meets Girl, de Leos Carax, França, 1984)

things we don’t understand and are definitely not going to talk about



Não quero saber, diz-se, mas diz-se apenas porque já se sabe. Algumas recusas não adiam a verdade, ainda que prolonguem a mentira. Não é, de facto, um processo muito eficaz.


(fotografia da série Things We Don’t Understand And Are Definitely Not Going To Talk About, de Miranda July)