Anda por aí uma polémica legítima que me fez expulsar o gato gordo de cima do último Ípsilon só para ler um texto do Jorge Mourinha sobre. Não há aqui qualquer gralha, só a minha incapacidade em completar a frase. Não se percebe quase nada. Percebe-se que partiu da lista de melhores do ano dos Cahiers du Cinéma, mas à primeira curva o texto já está todo desfeito, saltitando entre alhos e bugalhos, entre comparações absurdas e teorias que começam e se destroem no mesmo parágrafo. O momento quem-és-tu-e-o-que-fizeste-ao-Jorge-Mourinha chega com a sua crítica às publicações que fazem listas do ano e dão estrelinhas, como o jornal para onde escreve. O crítico colaboracionista Jorge Mourinha usa logo a seguir a sua longa análise com meia página de texto para atacar a ligeireza dos que andam internet fora a escrever informadamente, coerentemente, apaixonadamente, sobre cinema – não são poucos e não dão estrelinhas mas não são pagos, logo, não são sérios. Tudo isto interessa porque a quem se arroga maiores responsabilidades não se admitem textos tão patetas. Não por acaso, a palavra mais repetida no texto é cânone, mas sobre o significado desta palavra Mourinha parece ter sérias dúvidas e experimenta várias abordagens, o que despista quem quer ansiosamente saber quem é o culpado, se o presente ou o passado, se a política dos autores ou a sua negação. Chega-se ao fim e não se sabe. Para policial não serve. Para análise sobre cinema também não vejo como. (Mas eu só bocejei, aqui ao lado é que se descreveu com propriedade o absurdo.)
(detalhe da capa do número 62 dos Cahiers du Cinéma, 1956, em tempos que não deixavam adivinhar a decadência actual)
Sinal dos tempos: por essas cidades fora o movimento já não disfarça os corpos imóveis no meio da rua. O medo começou a devorar os seus filhos, mas antes vieram em seu nome falsos profetas proclamar as esquinas como ameaças, cercando as presas, preparando o repasto. Mas se nos prometem a fome como uma oportunidade, que ela seja a da recusa de uma mesa demasiado alta à qual só alguns se sentam e onde só alguns se servem.
(fotograma de Cosmopolis, de David Cronenberg, França/Canadá/Portugal/Itália, 2012)
Houve no cinema um tempo de monstros levando bonecas de trapos nos braços, ninguém se quebrava, não se podia. Depois soubemos que todas as máscaras eram de louça e tornou-se muito mais difícil.
(fotogramas de Creature From The Black Lagoon, de Jack Arnold, EUA, 1954, e de Les Yeux Sans Visage, de Georges Franju, França/Itália, 1960)
Se vamos esfolar os joelhos, que seja bem escolhido o altar. Supõe-se que as figuras adoradas estejam vivas, que saibam abrir portas e nos convidem para dançar. Claro que enquanto se olha para cima, não se olha para baixo, e há quem tema o buraco que o medo sussurra ao ouvido. Mas um altar é um lugar de fé e um desejo de permanência. O medo come a alma, diz o filme e digo eu, repetindo-o como um credo que se aprende por tão facilmente se perceberem as cordas acercando-se das gargantas. Não se entregue ao que é lastro o salvamento, estátuas de mármore não flutuam.
Mr : As janelas iluminam-se para recusar a ausência, é o que se lê na fachada, mas lá dentro espero-te. Portanto, a arquitectura mente, descarada no seu sorriso de dentes muito brancos.
Mrs : Nenhuma criança se vai de nenhum peito. A escuridão a todos torce os fundos da garganta. Ainda, as luzes até ao amanhecer. Aqui e ali, a vida flui o suficiente. Regista-se um salvamento inteiro. Ao número seis, acabam de chegar os passos que romperam o silêncio.
Mr : É muito discutível a transparência do vidro. Até que proves a porta como uma abertura, continuarei certo de que uma janela só permite ver o lado de fora. E no entanto, o que mais me é interior pode ser localizado pelo som dos teus passos. Mas o que ouço não se acercou ainda de mim o suficiente para me matar a fome.
Mrs : Sobressalto para o espectáculo que se aguarda. A distância engolida pela pressa. Sobe o som dos passos, a chave acerta. Sabes-me no rosto. Jamais haverá repetições suficientes para esta entrada. No corpo, abriram-se as portas da dança, a maior transparência dos olhos.
Mr : Depois subtraem-se os centímetros aos centímetros, a janela já olha para dentro, há um plano fixo sobre os nossos nomes povoando as bocas ainda há pouco mudas. E nos gestos sempre novos sempre há um desejo de repetição. Como uma confirmação.
Mrs : Atrás da janela indistinta, afinal um desses pequenos quartos que se alongam, que nunca acabam.
Mr : Sem forma, mas com profundidade imperscrutável.
Mrs : Casa de luz onde a noite foge.
(com a Sabrina)
(fotograma de The House On Trubnaya Square, de Boris Barnet, URSS, 1928)
in this very room we spent the day and looked over antiquities
Lição de arquitectura: alguns espaços constroem-se mais pela memória do que pelo olhar, mais pela ausência do que pela presença, e assim e ali se sobrepõem todos os tempos. Para que não digam que não existem máquinas do tempo.
(vídeo de Hilary Walsh para In The Same Room, de Julia Holter - com concertos imperdíveis, já em Junho, na ZDB e no CCVF)
O que eu recuso é o silêncio à mesa. Parece-me já demasiado longa a longa noite onde tudo dorme e só alguns insones gritam. Se é para inventar um encontro, que se destapem primeiro os tachos e se discuta o que lá dentro já não disfarça um certo odor a ranço. Só come em silêncio quem quer. Mas se é para inventar um encontro, que fiquem os cotovelos sobre a mesa firmando um lugar próprio. A opinião no prato do vizinho só vale se a soubermos escolher e um assentimento mudo é um fingimento, não é uma resposta. Há pois quem julgue definir-se um banquete pelo que é servido, quando em verdade se define por quem é servido. Daí uma revolução na rua sem antes uma revolução à mesa não ser uma revolução, mas um motim.
Lá para o fim já baloiçava como se dançasse no meio do bosque, mas no início fechavam-se os seus olhos tantas vezes quantas para ela eu olhasse. Se dormia ou fugia, importava pouco - será sempre mais longa do que o seu sono a minha espera de mão estendida. Todos os lugares exageradamente belos parecem irreais e é por isso que muito se aconselham os pés descalços, confirmando o chão antes que a dúvida nos convença de uma ilusão.
(fotografia de cena de A Gaivota, de Anton Tchekov, por Nuno Cardoso/Ao Cabo Teatro)
you don't expect a table to suddenly turn into a chair but maybe it's not a table
Das muitas mentiras, a da imutabilidade é a que mais mata. Nós somos nós e a nossa circunstância, já dizia o outro, o que em linguagem matemática será o mesmo que afirmar que a introdução de uma variável numa equação sabota o conhecimento prévio de qualquer resultado. Há quem condene ou se condene a uma linha recta apenas por afirmar o contrário. A natureza humana é uma matriz, não uma grelha de resultados.
(fotogramas de Blush, de Wim Vandekeybus, Bélgica/França, 2005)
Estamos aqui e em redor, sós sem estarmos sós, de tudo fazendo um espelho. O enlace não cabe na fotografia onde só cabe o que não se demora. Demoremo-nos. A fotografia não saberá o fim da história que começou na mais imperfeita escuridão.
Prender os pés ao chão porque é do chão que sempre se parte mas prender os pés ao chão se puder o corpo erguer-se levando a boca a outra boca. É isto a cautela, preparar o corpo para os lugares onde só o corpo nos leva.
(fotograma de Blush, de Wim Vandekeybus, Bélgica/França, 2005)
Possa a água arrefecer-te nos cabelos sem que deles se despeçam as minhas mãos, dir-te-ia se não me calasse muito calado. Demora-se muito tempo a aprender o silêncio e a permanência perante paisagens devastadas por um corpo, não iria trair-me agora. Antes de partir devia ter aprendido a chegar.
(fotogramas de Zerkalo, de Andrei Tarkovsky, URSS, 1975)
if you can't have the real thing you do all kinds of unreal things
Uma obsessão é um cerco, e todos se lembram dos cercos medievais onde não estiveram - tanto se expunham à fome e à peste e à espera os do lado de dentro como os do lado de fora. Por princípio, importa que a conquista não seja uma ruína.
(fotograma de Deep End, de Jerzy Skolimowski, RFA/Reino Unido, 1970)
Esfregar uma nódoa é um acto de fé. Como desejo de eliminação, é também um desejo de substituição, de um tempo por outro. Mas o tempo não começa, o tempo já começou. E o que não começa pode ser removido, mas não apagado.
(fotograma de Zerkalo, de Andrei Tarkovsky, URSS, 1975)
you pull back the curtains and the sun burns into your eyes
Lembro-me de treinar o fôlego atravessando piscinas com o peito rente ao fundo mas ignorei durante muito tempo que é no meio de estradas que mais útil se revela a boca fechada prendendo o ar e a voz. Quem diz estradas diz estradas ou corpos sob ameaça de tempestade. Quando a direcção importa, o passo sustém-se com o fôlego treinado até que o céu se rasgue, mas então prossegue. Um corpo com uma direcção não sabe estar parado.
(fotograma de O Sangue, de Pedro Costa, Portugal, 1989)
but you will learn to mind me and you will learn to survive me
Inato não é o que nos acompanha desde o berço, mas o que dispensa a aprendizagem. É o desprezo por esta distinção que permite que tantos permaneçam escravos depois de terem sido eliminadas todas as mordaças e todas as vedações.
(fotograma de Manderlay, de Lars Von Trier, Dinamarca/Suécia/Holanda/França/Alemanha/Reino Unido/Itália, 2005)
Por favor apague o corpo. Não era o que estava escrito, mas foi o que li e por momentos foi pleno o seu sentido. Disse-nos ela que o corpo é um pouco gago, lembro-me sempre, ou lembro-me sempre que me falha a mão na mão no tempo certo ou a inclinação suficiente do peito. O corpo é uma escrita como outra qualquer, mas está-lhe vedada a mudez e a sua ortografia é tão mais difícil, somam-se traições atrás de traições em causa própria, e nunca lhe é permitido terminar uma frase e é quase insuportável essa suspensão antes do fim, a pontuação da frase sendo sempre o outro.
(excerto de Spiegel, obra-retrospectiva de Wim Vandekeybus, onde condensa algumas das suas principais coreografias, 2007)
E de repente já não sei se somos nós que olhamos as coisas, se são as coisas que nos olham, as imagens tranquilas em nós cinzelando o que não sabíamos que sabíamos. A gravidade não se ensina, reconhece-se.
(fotograma - roubado ao Czaradox - de Dieu Sait Quoi, de Jean-Daniel Pollet, França/Bélgica, 1994)
Não passa isto de uma desavença entre o dia e a noite. Todos os corpos sabem morrer mas nem todos sabem manusear as cinzas. Belos são os que por fome do outro se debatem com o chão, com o coração, com o músculo retesado pelo frio. Esperemos. O corpo exaurido assinalará o começo.
(Anna Pavlova, em 1925, a dançar The Dying Swan, sua criação a partir de Le Cygne, que Camille de Saint-Saëns lhe dedicou)
São seis letras na horizontal para fome canina, mas deixo os espaços em branco. É quase indecoroso que desconheça o que preenche esse vazio quando tão bem conheço o vazio que desperta essa fome que em duas palavras me descrevem. Mas há nessa ignorância uma utilidade. Cale-me eu agora, que as bocas não precisam das palavras para morder.
(fotograma de Blush, criação videográfica para coreografia homónima, ambas por Wim Vandekeybus, Bélgica/França, 2005)
Por muito que te dobres ou desdobres, aprenderás que a imobilidade é um esforço inútil e que o movimento será sempre um imperador sobre a Terra. Do mesmo modo, e porque falamos da gravidade exercida sobre os corpos, o início do beijo é anterior à aproximação das bocas e o risco está na demora ao espelho. Porque não há escolha entre a viagem ou o destino porque a viagem é o destino.
(fotografia de Bartók / Mikrokosmos, coreografia de Anne Teresa de Keersmaeker, 1986)
Falam-nos do temor de morder a maçã, mas ela foi já mordida e por isso pergunta-se agora se pode ainda ser corrompido o que já não é intacto. De tão óbvio o desejo, conclui-se que sim, que nunca se começa do princípio. Depois há quem divida o fruto à faca e quem o divida mordendo-lhe à vez a polpa. Estes são os que partilham o caroço. Ou seja: é a tua vez.
(fotograma da série Luther, criada por Neil Cross, Reino Unido, 2011)